Eurogamer.pt

Stardew Valley - Análise

Outubro pega tudo.

Esta análise chega quase com um ano de atraso, mas pelo menos reenquadramos uma das propostas indie do ano passado (Fevereiro de 2016), agora que teve lugar o lançamento na consola Switch, da Nintendo e para a qual assenta bem. O ano passado, Stardew Valley mereceu honras na plataforma Steam e posicionou-se como um dos jogos mais vendidos em poucos meses, tendo mesmo ultrapassado o milhão de unidades. Fortemente inspirado em Harvest Moon, é uma produção esmerada do estúdio Concerned Ape e tem como director Eric Barone, que salientou a série Story of Seasons para as consolas da Nintendo como uma grande inspiração do seu jogo. Ainda com Story of Seasons: Trio of Towns na memória, a última semana foi dedicada a esta muito sublime proposta.

Stardew Valley é, à semelhança de Story of Seasons, um simulador da vida no campo, mais concretamente no mundo rural. A vida aqui não é fácil pelo constante esforço que representa, mas é ao mesmo tempo uma alternativa e escape ao cizentismo da Joja Corporation. É curioso registar que o jogo começa precisamente por aí, por nos mostrar caminhos diferentes como ocupações e por isso também se distingue facilmente de Story of Seasons, pelo menos na fase inicial. Enquanto que neste jogo encontramos uma estrutura por escadas, através de degraus progressivos de aprendizagem, em Stardew Valley não nos sentimos guiados por entre tarefas, mas livres para definir o nosso trajecto.

A primeira cena é aliás muito elucidativa do que nos aguarda nesta aventura. Um dia o nosso avô deixa-nos uma carta para abrirmos mais tarde, só quando num dado momento da vida se revelar útil. Esse momento acaba por chegar e o que consta no interior da carta é a entrega de uma quinta na região Stardew Valley, uma pequena vila rural imensamente verde, onde perduram antigos modos de vida. Só que os anos passaram e toda a estrutura se ressentiu com a passagem do tempo. As ervas cresceram, não existem plantas nem colheitas e a casa como que se afunda na terra. Felizmente, encontramos algum apoio na fase inicial, dedicada à reconstrução e recuperação, mas depressa ficamos por nossa conta.

1

O aspecto da quinta depende da vossa habilidade para o ordenamento e do empenho na produção.

É a partir daí que começamos a fazer a nossa história. Não existem tutoriais, não existem guias, nem sequer uma linearidade de eventos. Apenas nos adaptamos ao ambiente, aproveitando o dia para uma série de tarefas e a noite para descansar e recuperar energia para a labuta diária. As tarefas envolvem operações básicas e simples, usando os utensílios à disposição. Desde abrir um buraco para deitar uma semente e regar, até quebrar madeira para obter lenha e fazer cercaduras ou partir pedras de molde a pavimentar o acesso à quinta, há todo um conjunto de actividades que realizamos de forma prática e com a intuição de um humano. Num quadro podemos verificar o progresso no que toca a certos objectivos, como conhecer as pessoas da vila, cultivar determinados bens hortícolas, etc. Mas é tudo muito opcional porque na realidade podemos usar o tempo no jogo da forma que entendermos.

Essa ausência de objectivos torna-se um tanto inusual nos momentos iniciais, podendo gerar alguma apreensão por não ser tão manifesta a sensação de progressão, como é hábito noutros jogos. No entanto, o melhor passa por isso, por permitir uma abordagem de forma livre. Ao mesmo tempo vamos acentuando o contacto com os npc's da vila e eventualmente começamos a descobrir novos objectivos e tarefas que melhoram a nossa experiência e então chegamos à fase intermédia, na qual é mais visível a dimensão de Stardew Valley e o reflexo e presença da nossa presença naquele mundo se faz sentir.

A duração do dia não é muito grande, o que limita a realização de actividades, embora seja bom se jogarmos por curtos períodos de tempo. Mas sendo donos do tempo a programação é quase essencial, especialmente quando passamos a ter os animais e a ocupação entre a terra e a produção de alimentos atingem novos patamares. Quase não existem limites para a estrutura da nossa quinta e a forma como a ordenamos. É essencial ter um bom domínio paisagístico e territorial se queremos tirar o máximo proveito do espaço que nos foi concedido. Com o tempo e novas ferramentas passamos a construir uma série de coisas úteis. É também um dos objectivos, tornar não só altamente produtiva como bonita a área circundante à casa.

2

Stardew Valley compreende o ciclo diário e as estações do ano. À noite podem observar as estrelas.

Em Stardew Valley encontramos uma economia de pequena escala que não dispensa um ritmo de trabalho avassalador. As colheitas proporcionam a maior parte dos lucros e ganhos, que por seu turno podem ser aplicados na aquisição de mais bens para melhor fabrico e desenvolvimento. Tudo se obtém de resto com esforço e uma constante dedicação. A relação com npc's também se desenvolve e por aí surgem novos desafios, como o casamento e a constituição de uma família, com mais elementos dedicados ao cuidado e desenvolvimento da quinta.

É interessante conhecer a quase trintena de personagens que encontram na vila, sendo aliás uma das sugestões em destaque logo ao começo. Todos têm uma história, promovem curiosidades e outras coisas que vão mantendo a ligação. No entanto, a vida no campo não está reduzida às tarefas na quinta e contacto com membros da vila. Existe uma mina por onde podem aventurar-se no subsolo e encontrar riquezas, embora tenham que lidar com alguns monstros e usar ferramentas específicas para os combater na forma de um jogo role play de acção. Os proveitos que se podem retirar das profundezas são grandes e compensam o risco envolvido.

A diversidade de actividades leva-nos a experimentar o acesso ao mar, através de uma significativa zona costeira onde podemos praticar pesca desportiva ou simplesmente capturar peixe para consumo e comércio, o que para os comerciantes da zona é bem-vindo ao mesmo tempo que podemos receber prémios e amealhar recursos adicionais. Certos objectos apresentam um elevado valor, caso em que podem ser mais úteis no museu da cidade, onde podem ser vistos e apreciados pelos membros da vila. Esse é também um dos desafios derradeiros, melhorar a qualidade de vida em Stardew Valley.

Até que ponto se frui desta escala de evolução só dependerá do nosso empenho e dedicação. Embora livre, sem "tutoriais" e criada quase à nossa maneira, esta é a nossa aventura que fica muito dependente do nosso compromisso. As etapas que vamos queimando até sentirmos a grande transformação dependem de um esforço quase diário, envolvendo a realização de muitas tarefas, de grande alternância e num quadro de possibilidades; das sementeiras, à pesca e à actividade mineira. Pode por isso ser uma experiência valiosa, melhor configurada que Trio of Towns, embora o sucesso fique condicionado pelo nosso interesse em fazer de Stardew Valley um mundo melhor e mais bonito.

Stardew Valley - Análise Vítor Alexandre Outubro pega tudo. 2017-10-28T14:26:00+01:00 4 5
Publicidade

Comentários (23)

Criar uma nova conta

OU