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Gravity Rush 2 - Análise

A mesma adorável, mas frágil Kat.

A aventura de Kat continua a ser algo singular, mas beneficiaria imenso com ajustes na experiência.

Esta sequela expande a escala do original, mas não corrige os seus principais problemas.

Depois de capturar os corações dos jogadores na PlayStation Vita, Kat está finalmente de volta numa nova aventura original para demonstrar a todos os fãs porque é que não a conseguem esquecer. Quando a Sony Japan Studio apresentou Gravity Rush ao mundo, em Maio de 2012, ficou desde logo a sensação que podiam ir mais longe, se não estivessem restritos pelas limitações da PlayStation Vita. Em Fevereiro de 2016, Gravity Rush Remastered chegou à PlayStation 4 para estabelecer uma ponte entre o passado e o futuro e para te mostrar como poderia ser um Gravity Rush feito de raiz na consola caseira da Sony. Gravity Rush 2 é precisamente essa visão, esse realizar do singular mundo de Kat. Pensado para uma plataforma robusta e sem quaisquer restrições que uma portátil poderia forçar na criatividade e ferramentas dos sonhadores. Especialmente Keiichiro Toyama, o visionário que imaginou o mundo de Kat e aproveita esta segunda oportunidade para o tornar mais apetecível.

Se a criação de uma nova propriedade intelectual é arriscado, a sua sequela também o é, especialmente num jogo como este que conseguiu uma audiência específica e dedicada. Tal como no primeiro, Gravity Rush 2 foca-se em Kat, a adorável protagonista loira que, com a ajuda do seu gato Misty, consegue manipular a gravidade. Isto é importante não só para a história mas também para a jogabilidade, uma vez que nos transporta para um conceito verdadeiramente singular. Toyama é um apaixonado pela BD Franco-Belga e isso vê-se desde o primeiro momento em que entram na vida de Kat. Não só pela forma como grande parte da história é contada, através de vinhetas, mas também pela estética de todo o jogo. Estes são os dois maiores valores de Gravity Rush e voltam a sê-lo na sua sequela.

Para Gravity Rush 2, a Sony apresenta uma história melhor trabalhada, com maior profundidade, e com personagens ainda mais apelativas. Não irei apresentar aqui spoilers, mas se viram a animação Overture, conhecem o ponto de partida do jogo. Kat, Raven e Syd estão perdidos num local desconhecido e terão de trabalhar em conjunto com os seus novos amigos para regressar a Heksvile, o local onde decorre o original. Sendo uma sequela, Gravity Rush 2 faz o que já era esperado, constrói sobre os pilares fundamentais do primeiro jogo, e, em sintonia com a PlayStation 4, permite que se tornem ainda mais grandiosos. Pelo outro lado, esta glorificação da essência do que foi Gravity Rush funciona também como uma espécie de lupa para os seus defeitos.

Novamente perdida, Kat surge num novo local onde terá de descobrir como regressar a casa. O tom adorável e gracioso do original está de regresso, sendo difícil não nos apaixonarmos por Kat e pelas suas constantes desventuras. Como seria de esperar numa sequela, o mundo de jogo cresceu imenso, em tamanho e escala, e permite aceder a locais altamente variados, com uma fenomenal sensação de verticalidade. Os poderes gravitacionais estão sempre em primeiro plano e são eles que transformam o gameplay em algo singular. No entanto, a estrutura não mudou quase nada e isso poderá representar alguns problemas. Gravity Rush 2 coloca-nos num mundo enorme para explorar onde existem missões principais de história, as missões secundárias, os desafios, e as novas missões online. As missões de história são variadas e as que mais exploram os poderes de Kat, já as missões secundárias continuam tão tontas e parvas quanto no original.

Se os desafios testam as tuas capacidades no uso dos poderes de Kat, seja a deslizar pelas ruas em corridas contra-relógio, a voar pelos céus num percurso pré-estabelecido para recolher pedras que permitem desbloquear novos poderes ou simplesmente a derrotar inimigos antes do tempo terminar, são estes desafios que voltam a tornar-se no elemento mais exigente do jogo, que pede mais do nosso controlo sobre o mesmo. No entanto, as inúmeras missões secundárias, responsáveis por duplicar o tempo de jogo, são tão tontas como no original. Talvez a equipa tenha sentido que se encaixam no perfil de Kat, mas a grande maioria faz-nos sentir que andamos a voar pelos céus apenas para prolongar a longevidade e sem nada para aprofundar o mundo ou a história.

Toyama e a sua equipa imaginaram um mundo no qual o jogador o percorre com total liberdade, voando pelos céus com os fascinantes poderes de Kat. Isto é muito importante pois este mundo é assolado pelos Navi, criaturas maléficas que precisam ser golpeadas em pontos específicos para perecer. Os poderes de Kat permitem-lhe usar um pontapé gravitacional e ainda atirar objectos, sem esquecer o ataque especial. Nesta sequela, Kat ganha ainda acesso a duas formas novas: Lunar e Júpiter, que brincam com os seus poderes. Se a primeira a deixa mais leve e capaz de realizar incríveis saltos, a segunda deixa-a incrivelmente pesada mas transforma os seus ataques em movimentos mais devastadores.

É uma forma engraçada de diversificar a jogabilidade, mas que não irá afectar imenso a experiência de jogo. Não são elementos revolucionários, mas antes sim novas formas de desafiar o jogador e que se tornam interessantes. Especialmente porque os seus ataques especiais e campos de força são diferentes e podem servir melhor determinadas situações. Ainda assim, tornam muito mais interessantes várias missões da história pois somos obrigados a utilizar uma forma específica, o que força o jogador a dominar as novas formas e como afectam os movimentos de Kat, e a descobrir uma nova série de desafios impostos pela jogabilidade.

Nesta sequela que é algo maior que o original, a Sony Japan aproveitou bem os alicerces da sua jogabilidade única e construiu sobre eles. Isto permite que desfrutes de uma experiência que é altamente similar à original, mas com uma boa quantidade de novidades que a tornam mais interessante. O principal problema que encontrei com Gravity Rush 2 foi verificar que se por um lado torna mais brilhante as suas forças, pelo outro tão torna mais evidentes as suas fraquezas. Mais ainda, fiquei espantado por ver que não foram corrigidas e se tornam ainda mais frustrantes. Especialmente a câmara, um adversário praticamente constante que terás ao longo da experiência, principalmente quando o jogo insiste em colocar-te em espaços apertadose e sem esquecer os controlos que precisavam de maior refinamento e ajustes.

A jogabilidade de Gravity Rush 2 pode tornar-se desnecessariamente irritante quando estás a lutar com a câmara. Os controlos não apresentam o refinamento que uma experiência tão singular requer. Kat cola-se às superfícies quando não é desejado, a câmara não te mostrada nada do que está a acontecer w sentes a falta de melhor sistema de mira. Por vezes nos combates ficas a perguntar porque é que certos movimentos não encaixam melhor. Esta falta de fluidez em alguns aspectos do jogo, ou falta de refinamento, estavam todas presentes no original e davam a sensação de serem facilmente corrigíveis, mas não foram. Isto reduz a qualidade da experiência que apesar de se elevar acima do original, não evita que sintas a falta de refinamento.

"A Sony Japan Studio não corrigiu as principais falhas do original e isto significa que terás de enfrentar momentos agonizantes com a câmara"

É algo que está presente também nos visuais do jogo, e talvez expliquem bem a forma como me senti com Gravity Rush 2. A sequela é muito mais vasta do que o primeiro, como locais ainda mais interessantes e fantásticos, um atestado das mentes brilhantes no Sony Japan Studio, mas depois encaramos cenários básicos com texturas de maior qualidade que surgem do nada, quebrando a imersão. Ao ponto de pensar que talvez fosse melhor um mundo um pouco mais pequeno mas mais firme. Será frequente ver neste mundo de grande escala muitas partes do cenário a surgir do nada, mas após se habituarem, talvez nem dêem por ela. O mesmo já não se pode dizer da música, simplesmente adorável e que dá cor e personalidade aos diferentes locais do mundo de Kat.

Gravity Rush 2 é quase tudo o que uma sequela deve ser, quase tudo. Expande a escala do original, apresenta uma história mais profunda e com personagens ainda mais interessantes, introduz-nos um mundo aberto pelo qual voámos livremente com esta singular jogabilidade gravitacional, mas infelizmente não maximiza o seu potencial. A Sony Japan Studio não corrigiu as principais falhas do original e isto significa que terás de enfrentar momentos agonizantes com a câmara, especialmente irritante nas boss fights, que com uma câmara eficiente seriam muito boas. Ainda terás de afastar a sensação que os controlos podiam estar melhores. De muitas formas, Gravity Rush 2 revela com incrível facilidade porque te apaixonaste pelo original, encantador e fofo, dono de uma personalidade única, mas pelo outro, podes sentir que não limaram o que havia para limar. Quando davas por ti a tolerar os aspectos menos bons do original e a pensar 'isto numa sequela será corrigido', agora vais descobrir que não foi.

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