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Watch Dogs 2 - Análise

Um novo início para a série.

São Francisco é uma cidade muito melhor para um jogo em mundo aberto do que Chicago.

Watch Dogs 2 é tudo aquilo que o primeiro jogo devia ter sido. A Ubisoft aproveitou o conceito original, isto é, a ideia dos hackers e de utilizar o conhecimento informático para controlar as infraestruturas de uma cidade, mas praticamente descartou tudo o resto nesta sequela e o resultado é positivo. A cidade, o protagonista, as restantes personagens, e a própria atmosfera deste segundo jogo dão à série Watch Dogs um novo início. Foi uma decisão inteligente da Ubisoft. Em vez de insistir numa sequela directa do primeiro jogo, a Ubisoft decidiu colocar de parte o que estava mal e aproveitar apenas o que era bom. O primeiro Watch Dogs estava longe de ser horrível, mas não cumpriu as expectativas em vários aspectos. As possibilidades de hacking eram limitadas, a cidade não tinha carisma e as actividades secundárias eram aborrecidas.

Qual a solução para tornar Watch Dogs 2 num jogo melhor do que o original? O primeiro passo foi escolher uma nova cidade. A cidade é extremamente importante num jogo em mundo aberto, e embora Chicago sejam uma das grandes metrópoles dos Estados Unidos, simplesmente não tem o mesmo carisma do que São Francisco. Mais uma vez, uma escolha inteligente da Ubisoft. Visto que Grand Theft Auto V decorre em Los Santos, uma versão fictícia mas praticamente idêntica a Los Angeles, era desinteressante escolher a mesma cidade. No entanto, mais a norte e ainda situada no solarengo estado da Califórnia, está São Francisco, conhecida pela ponte Golden Gate, a prisão de Alcatraz, e o Silicon Valley, o maior berço de tecnologia do mundo. Para além destes pontos icónicos, é uma cidade mais bonita, à beira mar e que nos premeia com paisagens bonitas sempre que subimos a um ponto alto.

Mais importante, é uma cidade com mais vida. Por mais lugares icónicos e paisagens bonitas que uma cidade virtual tenha, há que sentir que estamos perante algo orgânico. É por isso que criar um jogo em mundo aberto nem sempre é fácil. Não basta criar um grande espaço e está feito, é necessário preencher esse espaço com coisas significativas. A cidade do primeiro Watch Dogs era desprovida de vida. Quando começamos a reparar nos pequenos pormenores de Watch Dogs 2, torna-se evidente o esforço que a Ubisoft depositou na sequela. Há interacções hilariantes com os habitantes da cidade. É ainda mais engraçado quando pegamos na câmara do smartphone e começamos a tirar selfies com estranhos. A expressão na cara das personagens é fascinante, umas ficam sérias ou aborrecidas, enquanto outras começam a rir-se e fazer posturas estúpidas. Há outros pormenores de valor, como um tipo a tirar fotografias quando a polícia prende uma pessoa no meio da rua (vejam o acontecimento no vídeo).

Seguindo as pegadas de Grand Theft Auto, Watch Dogs 2 também acaba por ser uma sátira da sociedade actual e há imensas referências a coisas da actualidade, como uma quest para tramar o CEO de uma empresa farmacêutica que aumentou drasticamente o preço de um medicamento. Até podemos invadir os servidores da Ubisoft e roubar o trailer de um novo jogo que será apresentado na E3, uma missão claramente inspirada no que acontece na indústria dos videojogos, em que a fuga de informações antes da revelação oficial se tornou cada vez mais comum. Devido a missões como estas, Watch Dogs 2, embora seja bastante longo, nunca se tornou aborrecido e consegue ter actividades diversificadas para não se tornar maçador. Há que sublinhar este aspecto, dado que as actividades secundárias do primeiro Watch Dogs eram aborrecidas e rotineiras. Um exemplo bem claro da troca de filosofia da Ubisoft em Watch Dogs 2 é que logo de início temos o mundo todo desbloqueado.

Mais sobre Watch Dogs 2

Em segundo lugar, um novo protagonista. Marcus Holloway é a cara de Watch Dogs 2. Jovem, bem disposto, inteligente, habilidoso e divertido. Logo no início do jogo Marcus Holloway junta-se aos DedSec, um grupo de hackers já referido no primeiro Watch Dogs (um dos poucos vestígios que restam). Marcus Holloway é um justiceiro da Internet que quer acabar com a tirania das grandes corporações que estão a tirar proveito dos motores de busca e redes sociais para roubarem informações aos utilizadores e as venderem pela licitação mais alta. Não é uma realidade muito diferente da nossa, visto que muitos dos serviços gratuitos que usamos nos nossos computadores e outros dispositivos recolhem informações sobre nós (mas estas informações são anónimas, ou pelo menos, é isso o que nos dizem). Apesar disto, Watch Dogs 2 também envolve fantasia. A facilidade com que Marcus acede e manipula os dispositivos à sua volta é surreal, mas claro, isto é perfeitamente compreensível visto que acontece em nome da diversão. E que fique claro, Watch Dogs 2 é um jogo divertido e que dá gozo jogar.

Tal como o resto do jogo, a história de Watch Dogs 2 não é tão sombria como a do primeiro. Mesmo quando as coisas ficam sérias (o que acontece bem mais à frente), há sempre um tom juvenil e leveza. Não é de espantar, o jogo parece ter como objectivo deixar-nos bem dispostos e até que consegue. O início quase que parece uma telenovela para adolescentes com hackers à mistura, visto que o grupo DedSec está sempre a fazer palhaçadas (e tenho que admitir que acabam por ter piada), ainda que o seu objectivo seja lutar contra as grandes corporações. Mas tal como já referi, a história eventualmente ganha mais seriedade, à medida que os membros do DedSec também vão crescendo, até porque todos eles são bastante jovens e ainda imaturos. Um exemplo disto é Wrench, a mascote dos DedSec que tem a cara completamente tapada com uma bandana e um visor LED expressivo que substitui os seus olhos. Será que esta personagem faz algum sentido? Não, mas mesmo assim é difícil adorá-lo.

A jogabilidade pega nas bases estabelecidas pelo primeiro jogo, aliás, todos os hacks possíveis em Watch Dogs foram reaproveitados para a sequela, mas há novidades que expandem as possibilidades e nos dão liberdade. Entre estas novidades estão dois veículos telecomandados - primeiro ganhámos acesso veículo de duas rodas e mais tarde podemos comprar um quadcóptero. Ambos são úteis para explorar um espaço antes de avançarmos e recolher informações, mas não fazem tudo por nós. Embora por vezes estes veículos consigam hackear dispositivos à distância, a maioria das missões requerem que avancemos com a personagem a certo local. Também podemos controlar todos os veículos à distância. Não há nada melhor do que ver um carro que queremos a passar por nós, pegar no telemóvel e ordená-lo para fazer marcha-atrás. Dos novos hacks, o meu favorito é poder forjar provas falsas e poder chamar a polícia para prender qualquer pessoa. De igual modo, podemos invocar membros gangues para, com base em acusações falsas, assassinar alguém.

"Watch Dogs 2, embora seja bastante longo, nunca se tornou aborrecido e consegue ter actividades diversificadas para não se tornar maçador"

As habilidades de Watch Dogs 2 estão dividas em secções, cada uma com uma árvore evolutiva. Para desbloquear habilidades precisamos de ganhar seguidores, o que é feito ao completar as muitas actividades, sejam principais ou secundárias. Também existem pontos assinalados no mapa que podem ser hackeados para ganhar pontos de habilidades extra. Além disto, as habilidades mais avançadas requerem hacks específicos em certos locais do mapa, mas não terão que perder tempo à procura, existe uma opção para assinalar no GPS esses locais. O sistema de progressão está bem conseguido, no sentido de que não temos que fazer coisas aborrecidas. Podem jogar da forma que quiserem e continuar a evoluir. Se quiserem, podem só jogar as missões principais, mas seria um desperdício. Há missões secundárias que valem o vosso tempo e que enriquecem a experiência.

Para além da diversidade das actividades, Watch Dogs 2 permite verdadeiramente jogar da forma que quiserem. Pessoalmente acho que o jogo tem mais piada se tentarem ser sorrateiros e completarem as missões sem serem detectados, mas o jogo não vos obriga a isso. Podem pegar numa arma e disparar para todos os seguranças, mas provavelmente reenforços serão invocados. A única queixa é que devia haver mais possibilidades no que toca ao stealth. Não faz sentido deixar um guarda K.O. e depois não poder mover o seu corpo. O problema é que se o corpo ficar num sítio visível poderá ser visto por outro guarda, que vai dar um alerta e deixar os outros guardas mais atentos. Há outras coisas que não fazem sentido. Apenas os guardas de um local são uma ameaça, as restantes pessoas não fazem nada (podem dizer qualquer coisa, mas nem gritam nem chamam ajuda), nem mesmo quando estamos a sufocar um guarda mesmo à frente deles. Devido a circunstâncias como esta, o jogo torna-se fácil. Os maiores desafios que Watch Dogs 2 tem são os puzzles com um cronómetro, e mesmo estas instâncias são acessíveis.

O online homógeno de Watch Dogs 2 é brilhante, isto quando estiver a funcionar. Tivemos a oportunidade de experimentar o online na semana passada quando ainda existiam poucos jogadores online, mas alguns dias depois foi desactivado por causar quebras na fluidez e por vezes até crashes. Não existe diferença entre o modo a solo e o multijogador. O que acontece é que de repente recebem uma notificação de que podem hackear outro jogador que está próximo de vocês. Também existem missões exclusivas para o modo cooperativo, que está a funcionar desde que convidem alguém da vossa lista de amigos. A vantagem desde tipo de online é que não existe qualquer tipo de carregamento. A Ubisoft está neste momento a trabalhar numa solução, mas não há data de previsão para a actualização que vai corrigir o problema. O problema é exclusivo para o modo online, visto que tudo o resto de Watch Dogs 2 está a funcionar em perfeitas condições.

Testámos Watch Dogs 2 tanto na PlayStation 4 normal como na nova PlayStation 4 Pro, acompanhada por uma televisão 4K. O grafismo e desempenho de Watch Dogs 2 deixa uma impressão positiva no modelo original, mas na PlayStation 4 Pro ganha outra vida, apesar de um desempenho ligeiramente pior devido ao aumento da resolução. A resolução maior na PlayStation 4 Pro reduz o aliasing (o efeito de recorte) e aumenta a nitidez da imagem. Independentemente do modelo da consola, há detalhes fantásticos, desde as texturas da roupa à arma improvisada de Marcus a baloiçar de um lado para o outro quando está a correr, já para não falar da iluminação dinâmica da cidade, que muda com as horas do dia e efeitos climatéricos. Há imperfeições já esperadas nos jogos do mundo aberto, como pop-ups no horizonte e zonas mortas se nos deslocarmos muito rapidamente, mas não é nada de intolerável.

"O grafismo e desempenho de Watch Dogs 2 deixa uma impressão positiva no modelo original, mas na PlayStation 4 Pro ganha outra vida"

O que há mais para dizer? A condução está melhor desde a última vez que experimentei o jogo. Quando joguei Watch Dogs 2 em Paris os veículos não tinham a sensação de peso. Na versão final é muito mais fácil controlar os veículos e já não parecem penas quando viramos para algum. Há também que elogiar as diversas possibilidades no que toca a alterar a roupa do protagonista e as excelentes escolhas musicais para a banda sonora (a banda sonora original também está muito boa e combina com o espírito do jogo).

Ao longo dos anos muitos jogos tentaram chegar perto de Grand Theft Auto, que tem dominado desde Grand Theft Auto 3 o género dos jogos em mundo aberto deste estilo. Watch Dogs 2 é um pretendente sério. Não queremos dizer com isto que se trata de uma cópia, mas antes que é um jogo dentro deste género que apresenta o nível de qualidade a que a Rockstar nos habituou. É mais cativante, mais divertido e melhor concebido do que o primeiro Watch Dogs. Podia ser melhor ainda, se o stealth fosse levado mais a sério e oferecesse mais desafios e complexidade nas missões, mas nesta sequela os prós pesam bem mais do que os contras.

Watch Dogs 2 - Análise Jorge Loureiro Um novo início para a série. 2016-11-15T15:54:00+00:00 4 5
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