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BioShock: The Collection - Análise

Universos distópicos.

De todos os jogos que me marcaram especialmente consigo recordar-me do tempo em que os joguei bem como uma série de circunstâncias que naturalmente pertencem ao foro privado e que aqui não vou relatar para não vos dar maçadas. Cingir-me-ei aos jogos. De resto tenho bem presente na memória as circunstâncias de tempo e lugar quando joguei BioShock. Foi em Agosto de 2007, já na ponta final do verão. Sabia que se tratava de uma produção de Ken Levine e que em termos narrativos se projectava bem adiante de outras produções. Oriundo de Gears of War (joguei BioShock na Xbox 360) que ainda se posicionava como um baluarte em termos de online multiplayer, mergulhar em Rapture foi uma experiência fenomenal.

Recordo-me de ter sido o meu jogo favorito desse ano e ainda hoje, passada a menos marcante sequela e o admirável BioShock Infinite não há nada melhor que o primeiro jogo. É uma obra como que perfeita, que qualquer pessoa devia experimentar. Caminhamos para os seus quase dez anos e tantas aventuras passaram entretanto, embora poucas tenham atingido a magnitude desta inesquecível viagem ao fundo do mar. Das personagens, aos segmentos, ao "voice acting", passando pela jogabilidade, todos os elementos do jogo atingem uma produção elevada e um equilíbrio entre si notável. E, entre quem jogou esta obra prima, que dizer da delirante e magistral banda sonora?

Foi um prazer voltar a encontrar o meu jogo favorito nesta colecção que reúne remasterizações de BioShock 2 e BioShock Infinite, bem como o original. A produção desta "trilogia" coube à Blind Squirrel Games, que anteriormente colaborara na série com a Irrational Games. Estando por apurar se haverá alguma sequela de Infinite para as consolas da actual geração, esta tríade de remasterizações é uma das melhores, especialmente se não jogaram o primeiro. Não sendo esse o caso torna-se interessante descobrir a trajectória ascendente, que vai das águas profundas de Rapture até Columbia em Infinite.

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Nas portas de Rapture.

Todos os conteúdos lançados para os dois primeiros jogos estão disponíveis, sendo que BioShock Infinite é uma versão "port" do PC. Os jogos correm a 60 fotogramas por segundo e a 1080p, com uma jogabilidade muito fluída e um grafismo melhorado que torna a experiência mais gratificante em termos visuais. Entre os conteúdos suplementares está um comentário de Ken Levine e do director de Arte Shawn Robertson, numa opção chamada Imagining BioShock, que funciona como um aprofundar do conceito do jogo e visão artística como elementos determinantes na construção destes universos compostos por utopias que acabaram em tragédias.

Na verdade, é isso que faz de BioShock, em particular o primeiro jogo, uma série especial; a conjugação entre narrativa, construção de personagens e ambientes admiráveis, em sintonia com um modelo tradicional de "first person shooter" adaptado a constantes melhorias e "upgrades", uma série que pode dar-se mesmo a esse luxo de dispensar componentes "multiplayer online" (nesta remasterização o multiplayer de BioShock 2 não está disponível).

Ao jogarem os três de enfiada, desde que tendo algum tempo para isso (o primeiro não é muito longo) vão descobrir imediatamente como a série progrediu em torno de tendências que cresceram ao longo da geração passada. Pese embora o forte teor narrativo que baliza cada jogo e que constitui um peso suplementar em cada entrega, percebe-se como a progressão até Infinite nos leva a descobrir um jogo com uma componente "shooter" mais tradicional, algo divergente das mecânicas empregues no original.

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Columbia, a cidade flutuante e mais uma utopia arruinada.

Dos três parece ser o jogo que melhor sobrevive ao típico teste do tempo, tanto em "gameplay" como no arco narrativo. Percebe-se que foi um jogo criado por um forte sentido de criatividade do seu director (Ken Levine), que apesar de aderir ao modelo popular dos "shooters" e algumas tendências, conseguiu um jogo mais liberto e fora dos padrões que tendem a aniquilar dezenas de experiências só pela pressão das editoras, do volume negocial e dos pedidos dos fãs. No entanto a sua realização é particularmente eficaz levando-nos a interiorizar e assimilar o ambiente, como que a desfrutar de cada situação, em especial da bela "arte déco" que tinge cada porção de Rapture com particular brilho. Bioshock ainda hoje surpreende, enquanto que a sequela diliuiu parte do brilho em elementos mais tradicionais e Infinite ganhou mais algum peso no "gameplay", uma transformação menos consensual.

BioShock 2 é dos 3 o menos surpreendente, uma sequela mais previsível que não foi produzida pela Irrational, então a trabalhar em Infinite, mas se falharam BioShock seguramente ficarão deliciados com a coerência e visão do jogo, uma direcção claramente livre de compromissos e das três a que melhor reluz (até está melhorada em efeitos de iluminação e texturas), especialmente em termos narrativos, embora neste capítulo estejamos realmente perante três jogos fascinantes e únicos no panorama das narrativas. Esta é uma daquelas colecções que merece a aquisição, rodar na vossa consola e figurar na vossa estante, como um expoente de uma geração e como aglutinador de três títulos memoráveis.

BioShock: The Collection - Análise Vítor Alexandre Universos distópicos. 2016-10-26T12:10:00+01:00 4 5
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