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Forza Horizon 2 - Análise

Côte d'azur é o limite!

A fasquia do original ficou alta mas desta vez o salto qualitativo é bastante significativo.

Nunca foi tão bom percorrer a costa mediterrânica, na linha marginal que percorre o sul de França, e que abarca a mítica Côte d'Azur, no sopé dos Alpes até à fronteira com Itália. É um trajecto dos mais admiráveis que se pode fazer de automóvel, especialmente no verão. E quando podemos partir para a estrada com o arrebatador Huracán, o novo modelo automóvel de sonho da Lamborghini, à hora do lusco-fusco, cada curva e momento vivido ficam gravados na nossa memoria como imagens capturadas por uma objectiva fotográfica em incessante disparo.

A mudança de continente, dos tons alaranjados e amarelados do Colorado, para o azul puro do sul de França trouxe uma nova alma ao festival de sucesso da série Forza Os ingleses da Playground habituaram-nos ao bom e do melhor com a primeira empreitada alternativa à série esculpida por Dan Greenwalt e chefe da Turn 10, com Forza Motorsport, onde verdadeiramente reina o apartado da simulação. Mas Horizon, recém criado e com uma história de somente dois anos, fez tanto pela condução automóvel em mundo aberto, que mesmo numa altura de paragem de séries consagradas e chegada de alternativas como The Crew e até Project Cars, mantém um charme e uma solidez difíceis de ultrapassar. E no entanto, ainda fica a sensação de uma margem de progresso, aqueles 30 fps suplementares que dariam puro sangue ao motor indomável.

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A extensão dos troços é variável e a percentagem dá-nos uma indicação sobre a proximidade da meta.

Isso e o Mónaco. Faltou a gema do ovo. A cereja no topo do bolo. Embora os locais e cidades representadas no jogo sejam verdadeiros, é uma pena não desembocar no principado a partir da estrada que sai de Nice. Seria - concedo - uma tarefa hercúlea representar tão bem um extenso mapa e área de jogo, (está é já muito superior ao jogo de estreia), mas seguramente daria o fundo perfeito para a maioria dos carros de luxo e clássicos "vintage", numa lista final que excede 200 veículos. Mas só por isso já conseguiu mais que Forza Motorsport 5 e ainda adicionou efeitos climatéricos, uma novidade na série e uma melhor transição entre o dia e a noite. Horizon 2 não é um jogo perfeito mas é mais do que uma tentação, puxa e suga qualquer fã de desporto motorizado e automóveis para o interior do veículo como raros jogos do género conseguem.

Com o cronómetro em punho

Mais sobre Forza Horizon 2

Os primeiros quilómetros cumpridos fazem cair o queixo dos menos desprevenidos. A entrada em estrada de veraneio e tentação para os realizadores de Hollywood acontece com o carro capa do jogo e logo aí recuperamos quase tudo o que de melhor Horizon 2 tem para oferecer. Uma sensação de velocidade estonteante e uma jogabilidade que nos deixa na incerteza sobre que lado aponta, se para um registo arcade e descomprometido, se para uma exigência típica dos simuladores. A experiência diz-me que é um ponto óptimo entre as duas mas também depende das assistências ligadas, ainda que a frente esteja de facto mais solícita. Tirem uma mão cheia de assistências e a traseira vai sacudir numa curva mais apertada quando estiverem numa volta lançada e decididos a quebrar o tempo de algum adversário. Ainda é um modelo herdado do jogo anterior. Uma jogabilidade de sucesso, que tanto agrada aos puristas como aos jogadores empenhados numas aceleradelas e travagens sem grande compromisso. O que não falta é velocidade, quando assumimos o volante de um dos carros mais rápidos, capaz de roçar os 360 km/h, se não mais. Há muitas experiências para isso.

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Ora cá vai uma molha.

Integrado num festival automobilístico designado Horizon, o jogador é um estreante na competição, sem experiência, sem grandes veículos à sua disposição, com poucos recursos financeiros mas com um talento à altura dos melhores. Materializar essa inclinação para os automóveis é o que se segue. O desafio está organizado em torno de uma série de múltiplas provas disputadas através de campeonatos (mais de 160 e de diferentes categorias), passagens estonteantes pelos radares, quebras de spots XP, carros secretos abandonados em celeiros, experiências de velocidade e objectivos com carros específicos. Tudo está organizado e visível no mapa mundo que consultamos à distância de um clique, mas também de modo a que os quilómetros na estrada se transformem em experiência acumulada, levando a nossa personagem a melhorar o seu nível de pilotagem, recebendo mais créditos pelas vitórias ganhas. Ao aceder aos novos campeonatos pelas vitórias ganhas, mais créditos o jogador possui para comprar novos veículos, organizados por categorias. Das classes mais baixas, até à categoria dos especiais, onde encontram o Huracán ou o La Ferrari.

Embora esta seja uma estrutura altamente familiar para quem percorreu o jogo anterior e que transitou numa boa percentagem para esta segunda edição, há novidades, a começar pelas cidades, uma espécie de ponto de encontro e de partida para as mais diferentes provas. Reflexo de uma melhor acomodação de eventos, isto permite um conhecimento mais amplo dos desafios que podemos disputar (basta um clique no mapa mundo sobre o ícone da corrida que queremos realizar para que o GPS imediatamente nos dê o percurso mais rápido) mas também uma linha de continuidade entre as corridas, praticamente sem quebras ou tempos mortos. É que chegados a um desses centros somos convidados a escolher um campeonato e eventualmente adquirir um automóvel para competir na prova (gentilmente o jogo indica a partir de uma lista os carros recomendados, tendo por base uma relação potência/performance).

A partir daí entramos numa viagem entre dois pontos no mapa, significativamente afastados, por vezes com mais de dez quilómetros de distância e com muitas diferentes estradas pelo meio (auto-estradas, percursos secundários, trilhos de terra batida, secções "off-road"). Ao ritmo e por imposição de um contra-relógio, temos de chegar ao destino num tempo limite, sob pena de deixarmos fugir o campeonato. As instruções do narrador (em português do Brasil se tiverem a língua da consola configurada para português) oferecem mais contexto e propriedade ao evento, como se estivessem no Gumball. E rapidamente descobrem que não estão sós no percurso. Há outros pilotos, com diferentes carros, atrás e à nossa frente, com avatares de jogadores reais e níveis de experiência verdadeiros. Os objectivos encontram-se assinalados à distância (espaço que falta sobre uma linha vertical) e nesses centros podemos contemplar o ambiente típico de festa com bandeiras, zonas de acolhimento do público, espectáculos pirotécnicos, e sonoridades quase hipnóticas. Em termos de espírito festivo e destaque dado aos bólides como centro do espectáculo, Horizon 2 não perdoa e torna-se mesmo num regalo para as vistinhas ver tanta bomba junta.

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Liberdade.

Para isso contribui também a inclusão das concentrações de automóveis. Nesses seis centros, podemos observar múltiplos carros. Sempre com entradas e saídas de novos veículos, torna-se divertido escolher um deles, abrir a porta e acelerar de modo a escutar o rugido mecânico oriundo do motor e o ruído criado nos tubos de escape. Se tivermos créditos para isso podemos comprar imediatamente o carro.

Nos eventos de ligação é possível desafiar algum rival e nesse braço de ferro conquistar mais créditos imprescindíveis para adquirir nos bólides. Um veículo da categoria S cifra-se bem acima de umas centenas de milhares de créditos, enquanto que um clássico "vintage" pode chegar aos milhões, como os antigos Ferrari de Le Mans ou o Jaguar Type E.

Um salto sobre as vedações

Com mais de setecentos eventos para disputar e um sólido modo "multiplayer online", quase não existem momentos "mortos" enquanto jogamos. Os desafios, campeonatos e provas sucedem-se a um ritmo avassalador. Mal terminamos um campeonato, somos levados a escolher outro. Os campeonatos albergam diferentes provas e a multiplicidade destas é um factor de evolução significativo, especialmente com a inclusão das provas off-road, corridas que saem dos moldes típicos das três voltas em circuito, percursos de estrada ou rali, e formam uma combinação entre asfalto, terra e monte, como quem corta a direito.

À partida poder-se-ia pensar que neste tipo de provas só os SUV's ou "monster trucks" como os Ford e as "banheiras" americanas podiam atravessar campos, avançar por uma densa vegetação e passar sobre as vinhas, protagonizando saltos e outros disparos fulgurantes capazes de levantar pó, ervas e outros detritos e muitas vezes até pedaços do carro, como guarda-lamas, espelhos laterais e outros apêndices. Mas não, desportivos de requinte afinados para asfalto participam nestas provas como demónios à solta, ganhando velocidade nas rampas e velocidade em curva. Pequenos obstáculos como sebes, pequenos postes, pinos e outros são colhidos com facilidade, mas um embate contra uma árvore ou casa é suficiente para causar um soco psicológico no estômago e levar à perda de preciosos segundos.

A sensação de condução absolutamente "off-road" e insana esconde os seus perigos: lombas que impedem um bom ângulo de visão, curvas mais apertadas e um pequeno pelotão de carros que tende a agravar as condições de pilotagem. Faz parte do desafio. Os fumos vermelhos dos "very light" que praticamente delimitam os pontos de controlo ajudam a encontrar a trajectória certa e em último instante, para emendar um erro, podemos sempre recorrer ao polémico botão Y e fazer um "rewind". A maior parte destas provas são diabólicas e qualquer curva feita ao largo conduz a uma perda de tempo irreversível.

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Exceptuando as paredes, nem os postes de iluminação travam o andamento dos bólides.

No final podemos sempre repetir o trajecto e superar até o tempo de um amigo. Mas é também nestas provas que o jogo revela uma fluidez incrível e apesar dos 30 fps, são muito sólidos, sem a mínima quebra, amparada por uma excelente sensação de física, que no controlo do veículo nos permite detectar praticamente todas as irregularidades. Aliás, o contacto do carro com as diferentes superfícies como asfalto, terra ou vegetação neste off-road é particularmente bem conseguido, sem ignorar o factor chuva que obriga a cuidados redobrados.

Os duelos regressam, com algumas provas clássicas, sem esquecer as novidades. A prova contra o biplano foi substituída por uma luta contra caças de combate, velozes e com uma passagem baixa capaz de fazer estremecer piloto e automóvel. O duelo contra o comboio a vapor, numa pista de ralis a lembrar o rali da Finlândia, fruto das imensas curvas e derrapagens prolongadas, e ainda os balões de ar quente que avançam rapidamente até à meta proporcionam desafios num diferente sentido e interessantes do ponto de vista dos efeitos visuais.

A lista de experiências perfila-se como uma óptima opção para iniciarmos um contacto com os grandes bólides, isto numa fase em que não temos ainda suficientes créditos para os adquirir. Bem cedo poderão tripular o novo McLaren a soberba velocidade, o F40 à saída de Castelletto sob um pôr-do-sol apaixonante e o La Ferrari, ali perto. São carros à espera de serem conquistados Os objectivos são diferenciados mas estas provas requerem experiência, concentração e firmeza no volante. Há dezenas destas provas.

O sistema de progressão foi melhorado através da atribuição de pontos de habilidade. Uma condução mais espectacular, com belas e grandes derrapagens, aceleradelas que espalham uma nuvem de fumo branco ao redor do carro e corridas sem tocar no adversário, enchem um medidor que cada vez que dá uma volta nos concede pontos que podem ser trocados por "perks", integrados numa árvore de recompensas. Assim, ao desbloquearmos um "perk", os seguintes ficam passíveis de ser adquiridos numa futura troca de pontos. Quase todos estes perks contribuem para obter mais pontos de experiência em diferentes contextos. O sistema é simples mas uma vez aberta a árvore, as recompensas são enormes.

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De partida para um novo campeonato.

Horizon 2 oferece ainda um editor bastante alargado em termos de pinturas, com hipótese de aquisição de algumas pinturas para quem pretende ter em sua posse um veículo exclusivo e sem necessidade de perder muito tempo a pintá-lo. As opções de melhoramento do veículo percorrem os trâmites gerais da série Forza, possibilitando que um carro da classe A ou B possa progredir para a categoria S, ficando assim elegível para outros campeonatos e outros voos.

Chega um pouco tarde, mas pela primeira vez um jogo da matriz Forza proporciona diferentes condições climatéricas. A juntar à transição entre o dia e a noite, num efeito melhorado por via do motor gráfico que equipou Forza Motorsport 5, a Playground adicionou a sempre apetecível e temível chuva. Nuvens negras sobre os Alpes antecipam uma descarga pluviosa em breve, alagando o asfalto e tornando a condução mais arriscada e cada curva é negociada com outra sensibilidade. As bátegas podem ser mais longas e demoradas numa prova mas também em tempo real, quando nos encontramos simplesmente a passear. Por vezes até chove quando há sol. E com sorte podemos encontrar o arco-íris. Os carros ficam bonitos com as gotículas e aquela película de bolhinhas.

O impacto gráfico é formidável, assim como os efeitos de luz, sempre em tempo real, o que reforça os efeitos visuais. Nas cidades encontramos mais detalhes como esplanadas, "vespas" estacionadas e bancos de jardim. Nota-se uma atenção ao detalhe e pormenor mas algumas frontarias ainda carecem de algumas texturas e as árvores, vistas ao pé, ainda carecem de mais algum trabalho. Mas também estamos a falar de uma vasta área, com dezenas de quilómetros de estradas.

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Qual ganhará: o carro ou o comboio?

Horizon 2 tira partido da inteligência artificial dos nossos amigos e jogadores ligados à consola, através do sistema implementado em Forza Motorsport 5 que modela o comportamento dos carros comandados pela inteligência artificial com base na performance real dos jogadores (Drivatars). Isso reflecte-se num comportamento mais agressivo e realista, com disputas até à última nesga de espaço livre e ultrapassagens arriscadas, mas também se verificam embates propositados, algumas manobras erráticas e por vezes até hilariantes. No entanto e em termos gerais o avanço é muito positivo.

Do ponto de vista do impacto e danos, amolgadelas um pouco por todo o carro são naturais assim que começamos a lamber as paredes e a fugir demasiado da linha de trajectória definida pelo GPS. Só que não esperem portas arrancadas, tectos soltos e perda de performance do carro. Ainda assim sobram bons efeitos como pó acumulado no carro, vidros estilhaçados, embora com poucas diferenças face ao título original.

O bom andamento do jogo prossegue em termos online, agregando com sucesso os condimentos da experiência individual, até 12 jogadores. As experiências com determinados veículos podem ser partilhadas com outro jogador, criando assim um desafio adicional. É garantido o acesso livre e imediato a determinadas provas e modos como o Free Roam e o Road Trip, uma espécie de agregado de várias provas em tempo real ao longo do mapa, embora seja relevante que haja equilíbrio entre os pilotos já que o primeiro a cortar a meta activa uma contagem decrescente de segundos. Os pontos de experiência obtidos por manobras habilidosas contam para a tabela de liderança e não apenas os pontos conquistados nas provas. Depois há também os clubes e os encontros de automóveis, óptimos para trocar pinturas e afinações.

Forza Horizon 2 é um daqueles jogos de atracção imediata e de tracção plena, que nos leva a sentir as mínimas forças de deslocação, mas possibilitando um espantoso controlo de trajectória. A Playground regressa para deixar a sua marca e neste primeiro mano a mano, na Xbox One, com a equipa Turn 10 e com a qual voltaram a colaborar, levou a melhor. A fasquia do original ficou alta mas desta vez o salto qualitativo é bastante significativo. Muito forte em conteúdos e corrigindo quase todos os pontos menos bem conseguidos da experiência original, Horizon 2 está muito mais próximo da visão do original e ainda nos dá um feedback claro de uma produção next-gen. Ainda há espaço para melhorar mas celebrar o automóvel com este "car porn" todo é um festão.

9 / 10

Forza Horizon 2 - Análise Vítor Alexandre Côte d'azur é o limite! 2014-10-16T17:15:00+01:00 9 10

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