Professor Layton vs Phoenix Wright: Ace Attorney - Análise

Investigação e crime na época medieval.

Quando em Outubro de 2010 a Level-5 anunciou o acordo celebrado com a Capcom para fundir num jogo duas das suas mais valiosas séries, os fãs das carismáticas personagens logo expressaram o seu contentamento pelo acordo e demonstraram grande expectativa em torno da nova aventura escrita a "quatro mãos". Embora os "crossovers" não sejam inéditos, o resultado final de um projecto levado a cabo nestes moldes acaba por depender da colaboração entre as produtoras e da existência de afinidade entre as séries. A janela mais visível deste formato ainda pertence aos jogos de combate, dada a relativa facilidade com que se colocam lutadores de diferentes mundos no mesmo palco de batalha. No entanto, o caso muda de figura quando estamos diante de personagens oriundas das aventuras e com mecânicas diferentes ligadas a cada uma.

Embora Professor Layton seja um detective britânico "gentleman" predilecto por tudo o que seja misterioso, sem nunca dispensar um quebra-cabeças inteligente e sempre acompanhado nas suas aventuras pelo seu fiel discípulo Luke, já Phoenix Wright, o mítico advogado, transporta para barra dos tribunais, para lá das famosas assistentes, uma perspicácia invulgar que lhe permite desmontar os depoimentos falsos das testemunhas e enfrentar os terríveis procuradores em acesos braços de ferro. Mesmo que na sua génese ambas as séries encerrem grandes diferenças em termos de argumento e mecânicas de jogo, não foi complicado perceber até que ponto Level-5 e Capcom ficariam a ganhar ao colaborarem sob o mesmo tecto.

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Phoenix Wright em viagem até Londres.

Da perspectiva dos fãs da série Layton e dos fãs de Phoenix Wright, este jogo constitui também uma oportunidade para ficar a conhecer bem cada uma, pois não obstante o interesse das produtoras em fazer um novo jogo, preocuparam-se por definir muito bem o espaço e actuação de cada personagem. A uma lógica dominante de puzzles, mistérios e uma apresentação visual muito ghibliana tipicamente Layton, junta-se um sistema de prova peculiar e um especial modelo de interrogatório do advogado, o que possibilita uma experiência mais alargada e sujeita a constantes deambulações consoante a personagem principal em cena.

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Mas é a partir daqui que se formam algumas questões relevantes para o sucesso da obra; sobre como é que a Level-5 e a Capcom poderiam fundir estes dois universos onde diferentes personagens gravitam. E até que ponto as duas companhias estariam dispostas a ir mais além do sistema de jogo associado a cada uma das personagens, arriscando diferentes sistemas de jogabilidade, assim que se tornasse inevitável o seu encontro. Duvidas não restam, porém, que esta fusão trouxe mais dimensão ao jogo. Se normalmente ambos os jogos se completam com aproximadamente vinte horas (no caso de Phoenix Wright o número de horas pode até ser maior, pois depende do número de casos a resolver), este "crossover" quase equivale à soma dos dois.

Num primeiro contacto com o jogo ficamos com a sensação típica de mais uma aventura do Professor Layton. A primeira cena animada é bem elucidativa. Começa com uma perseguição a um automóvel em fuga, conduzido por um presuntivo detective acompanhado por uma jovem de cabelos louros. Após embater numa árvore, num acidente causado por criaturas misteriosas, o condutor pede a Espella Cantabella (a jovem que o acompanhava e uma das personagens principais do jogo) que se afaste dali e que procure em Londres pelo Professor Layton. Mas após o encontro rapidamente a história assume contornos bizarros com a jovem a ser raptada da casa de Layton por uma bruxa. As primeiras horas passam, sempre com Layton e Luke sob os holofotes. Após folhearem o livro deixado por Cantabella acabam por viajar no tempo até uma misteriosa cidade medieval chamada Labirinthya, onde vivem bruxas e onde uma personagem misteriosa conhecida como Story Teller parece condicionar o futuro de quem ali vive por intermédio dos seus escritos. Sem querer estragar a surpresa sobre o que sucede daí por diante, ao fim de algumas horas, rapidamente o destaque passa para o inevitável e flamejante Phoenix Wright e sua assistente Maya Fey.

Agora com uma apresentação gráfica claramente Ace Attorney, entramos numa sequência que vai dos preliminares do julgamento à audiência, com a diferença a ser a sala de um tribunal de Londres, para onde viajou o protagonista ao abrigo de um programa de intercâmbio de advogados. O primeiro julgamento está directamente relacionado com os acontecimentos derivados da primeira parte do jogo protagonizada por Layton mas ambos ainda não se conhecem. O toque é apenas entre as pontas da história que começa aqui a dar os primeiros sinais de convergência.

Durante as primeiras horas de jogo, as duas personagens centrais são acompanhadas alternadamente, sendo que a jogabilidade é a mesma das séries em cada um dos momentos. Assim, com Professor Layton temos os tradicionais puzzles como elemento central da jogabilidade. Proporcionados pelas personagens que encontramos nas paragens do trajecto, os diferentes formatos dos quebra-cabeças aguçam o interesse pela descoberta da solução. Além disso, Layton está sempre acompanhado por Luke, comentando ambos sobre os pormenores dos vários locais por onde passam a pé. Inversamente, quando nos encontramos na barra dos tribunais com Phoenix Wright, o interrogatório às testemunhas assume uma relevância fundamental.

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Layton e Luke trocam impressões sobre Labirinthya, cuja história se encontra no misterioso livro que Espella Cantabella tem em mãos.

Mas no final do primeiro julgamento numa sala de audiências britânica, Phoenix Wright e Maya Fey, à semelhança do professor e seu fiel aprendiz, são tele-transportados através de um livro, para essa misteriosa cidade medieval da qual ninguém consegue fugir (daí o nome Labirinthya). Com Layton e "Nick" já estabelecidos dentro da narrativa e com as suas mecânicas totalmente explanadas e revisitadas, é a história que cativa o jogador daqui por diante e o leva a ansiar por mais, pelo momento em que os dois protagonistas se encontram. Desde o princípio até ao encontro passa uma boa meia dúzia de horas. Mas vale a pena aguardar pelo encontro.

A apresentação das personagens estreita e unifica finalmente a história, que deixa de prosseguir através de momentos separados para assentar numa espiral de acontecimentos interligados e que oferecem a particularidade de colocar Layton e Phoenix Wright num trabalho de cooperação. Labirinthya, como o espaço central onde decorre a trama, é uma cidade misteriosa, repleta de caricaturas da época, um traço arquitectónico pujante e repleta de personagens intrigantes, destacando-se obviamente o Story Teller. A lei é peculiar, assim como o tribunal que será a próxima casa de Phoenix Wright, os "Witch Trials". Assente numa dicotomia entre justiça e investigação, o jogo vai oferecendo o melhor dos dois mundos à medida que as personagens colaboram, e os assistentes Luke e Maya se revelam preciosos no seu serviço de apoio.

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