Killzone: Mercenary - Análise

Vita glorificada.

Prova que os jogos AAA caseiros podem existir numa portátil.

A travessia no deserto terminou. A longa espera por um AAA de topo que recria em toda a sua plenitude uma experiência caseira num formato portátil chegou e tendo como nome Killzone: Mercenary. Este é um jogo que glorifica a PlayStation Vita e ergue-se como um espantoso atestado das filosofias da Sony para a portátil. Isto é o que a Sony havia prometido aos seus jogadores e tanto demorou a chegar. Enquanto alguns criticam a falta de jogos feitos especificamente para uma portátil ao invés de tentar copiar jogos caseiros para uma portátil, a Sony continua a bater firme o seu pé e afirma em clara voz: 'Porque não podemos ter as duas coisas na PlayStation Vita?' Depois de amargos first-person shooters como Resistance ou Call of Duty, a Sony ataca com Killzone e mostra como a Vita pode ser casa para todo o tipo de experiências.

Jogos como Call of Duty e Resistance foram convertidos para a portátil Sony por um estúdio externo que demonstrou não ter o conhecimento suficiente para apresentar algo satisfatório. Quando temos um estúdio interno que conhece as forças ou as fraquezas do sistema, ao mesmo tempo está dedicado em pleno a uma propriedade intelectual já estabelecida e que revela fome por qualidade para combater os principais e assinalados problemas de design, temos então alguns dos mais poderosos condimentos para desenvolver um sucesso na PlayStation Vita. Esse é o caso com este novo Killzone para o qual a Sony reestruturou o seu estúdio em Cambridge, chamando-se agora de Guerrilla Cambridge e dedicado a esta série, que nos dá agora um dos melhores jogos da PlayStation Vita. O "novo" Uncharted: Golden Abyss.

Apesar de toda a sua jornada para apregoar o apoio aos independentes e todos os jogos disponíveis via PlayStation Network, a Sony continua a apostar em jogos de alto perfil que tentam como que iludir o jogador e o levar a acreditar que efetivamente tem 'qualidade PlayStation 3 em formato portátil'. Isto não quer dizer que Mercenary é um jogo perfeito, longe disso, apenas que a soma das suas qualidades ultrapassa largamente as suas poucas fraquezas e que se assume desde logo como uma experiência de topo. Acredito que o maior elogio que se pode dar ao jogo é também a sua maior crítica, que jogar Mercenary é mesmo como jogar Killzone 2 numa portátil com estruturas e mecânicas desenhadas para tirar proveito desta plataforma.

Desde já devo dizer que a história de Mercenary é importante para os adeptos da série mas ao mesmo tempo não é propriamente o seu melhor aspeto. Arran Danner é um mercenário que vai viajar entre Vekta e Helghan, em eventos que decorrem durante o primeiro e o segundo jogo na série, pelo meio será envolvido numa trama de traições, jogos políticos e debates morais sobre a guerra e a forma como afeta quem a enfrenta. É talvez mais completa e mais profunda que a dos jogos de consola caseira mas ainda assim alguns contornos deixam a desejar por falta de exploração.

Existem figuras importantes, traições, set-pieces de topo como nos melhores AAA mas ao mesmo tempo o enredo não é tão sólido como acredita que é. Cumpre e deixa espaço para algumas personagens crescerem mas é mesmo o regresso a este universo que acaba por ser o principal destaque. Toda a gameplay pode dar-se ao orgulho de gritar alto e bom som: 'sou exatamente igual a jogar Killzone numa caseira'. Isto é, para o bom e para o mal, um dos mais importantes elementos das bases de Mercenary. Uma outra prova do excelente design da Vita e como aqueles dois analógicos fazem a diferença.

Se já jogaram qualquer Killzone numa consola caseira, ou até mesmo qualquer FPS na Vita, em apenas alguns minutos estão a dominar o jogo. O sistema de cobertura, a forma como disparamos, a forma como a mira de cola aos adversários quando dentro de um certo limite de aproximação, a forma como recarregamos, tudo reflete com precisão a gameplay que conhecemos anteriormente. No entanto, Mercenary aprofunda a estrutura da série Killzone ao incorporar uma mecânica de furtividade nos seus níveis.

Em grande parte do jogo, podemos optar por uma abordagem furtiva, reduzindo assim o número de inimigos que enfrentamos e o seu poder de ataque. Caso optem por esta abordagem,o jogo fica ainda maior e temos mais prazer porque sentimos que deixa de ser mais um banal e comum shooter para ter ramificações e personalização na hora do jogador decidir como quer jogar. Por vezes não corre tão bem quanto desejado mas quando funciona é mesmo um prazer. Que o digam aqueles que vão usar mantis, o pequeno robô, para eliminar furtivamente e à distância os adversários que iremos enfrentar.

Adversários esses que voltam mais uma vez a refletir Killzone tal como o conhecemos. Aqui neste caso não é tão bom quanto se deseja. Killzone tem mostrado uma inteligência artificial inimiga bem abaixo do desejado e aqui mais poderia ter sido feito. Ocasionalmente os inimigos nem chegam a dar resposta e mais parecem tontos a correr pelos níveis mas noutros momentos são ferozes, contornam o jogador e parecem saber mais táticas do que deveriam para nos eliminar. É aconselhado a jogarem numa dificuldade acima da normal para melhor experiência e tirando um ou dois momentos de estupidez e fraca I.A., Mercenary será desafiante.

Desafiante mas pouco diversificado, diga-se. Mesmo que este elemento não estrague de forma alguma a experiência, não ficariam nada mal mais inimigos variados. Os pequenos momentos em que temos que enfrentar situações inesperadas criam momentos intensos de gameplay, tal como se pede. Sendo tão poucos seria de esperar que causassem maior impacto mas como também eles mostram algumas debilidades, rapidamente os esquecemos. No entanto são sem dúvida bons momentos que temos. Também aqui diria que estamos perante um Killzone 2 portátil.

Tal como nos visuais. Sem a momento algum atingir o patamar do controverso segundo jogo na série da Sony, Mercenary mostra uma palete de cores que se assemelha mais a esse jogo. O castanho de Helghan surge com toda a pompa em vários níveis mas os que aguardam por Shadow Fall podem contar com bons momentos aqui. Algumas set-pieces espantam e ocasionalmente o portento técnico engana o jogador e faz acreditar que não temos uma portátil nas mãos. Especialmente porque existe toda uma panóplia de efeitos que impressiona possíveis graças ao uso do motor de Killzone 3 em versão adaptada.

Existem locais variados que mais do que causar diversidade visual afetam também a gameplay, a forma como jogamos e toda a progressão no jogo. Existem desafios específicos aos locais que tentam tirar maior proveito de algumas armas, outros que tentam incutir uma forma de jogar e outros que simplesmente dizem ao jogador para se divertir. A combinação do poder visual com a estrutura da gameplay é um dos principais responsáveis pelo prazer que é jogar Killzone: Mercenary.

Pena não fazer nada de novo porque o que faz é quase tudo com grande qualidade. Existe aqui um claro conhecimento e compreensão da forma como a portátil funciona e o jogador será brindado com um produto que o procura surpreender a cada nova esquina. Dinâmico no seu ritmo e altamente intuitivo de jogar, esta é uma experiência que será facilmente recomendada a qualquer um. O seu aspeto visual será uma das suas principais referências, até porque Killzone sempre procurou um aspeto belo e impressionante.

O blackjack é um elemento central na experiência.

Killzone: Mercenary mostra-se altamente completo ao apresenta-se como o jogo PlayStation Vita com a componente multijogador mais divertida de todos. Imaginem toda a experiência caseira que tiveram na vossa PlayStation 3 mas ajustada e refinada para uma portátil. Temos Todos Contra Todos, Todos Contra Todos Equipas e o espetacular Zona de Guerra que vem diretamente de Killzone 2 e 3. Aqui temos uma sessão de jogo ujos objetivos se vão alterando dinamicamente consoante jogamos.

Podemos estar num combate de captura de territórios como a seguir podemos passar para um modo no qual temos que capturar objetos ou simplesmente matar um número maior de inimigos que a equipa adversária. Tudo isto sem a momento algum termos quebras na ação, tal como os fãs bem esperam e conhecem. Os mapas servem na perfeição o número reduzido de jogadores por equipa, quatro no máximo, e ajudam a manter o ritmo dinâmico e frenético. É provavelmente o multijogador mais completo e mais divertido que tive o prazer de conhecer na Vita.

De igual forma, temos o sistema Valor que nos atribuiu uma carta de 24 em 24 horas consoante a nossa prestação na campanha e multi. Quanto mais cartas colecionar e com melhores combinações, mais recompensas existem para obter e isto torna especialmente cativante eliminar inimigos para recolher mais cartas. É uma boa forma de incentivar o jogador a procurar ser melhor e de o inserir num espírito competitivo.

Por fim convém salientar que se podem preparar para um jogo que vos irá durar largas horas. Se o dinheiro não abunda e querem um jogo sólido com capacidade para durar meses, Mercenary alia o incentivo à repetição dos níveis da campanha com um multi cativante e imersivo. É uma sintonia que faz deste Killzone o melhor em alguns elementos e acredito que Shadow Fall terá que implementar algumas das mecânicas aqui presentes para continuar a subir a qualidade que esperamos de um jogo dentro da série Killzone.

Killzone: Mercenary não faz rigorosamente nada de novo (fora da série) mas o facto de fazer o que faz, com a qualidade que o faz e especialmente numa portátil é em si algo a louvar. A estrutura de jogo encaixa na perfeição num sistema que tem forçosamente que permitir sessões de jogo curtas e explora bem o universo criado pelo Guerrilla Games. Pena que algumas falhas impeçam este jogo de se tornar ainda melhor mas tal como está, esta é uma estrondosa prova que a Sony consegue implementar as suas filosofias e oferecer um produto de topo na sua portátil. Muitos não querem experiências caseiras numa portátil mas os que querem, façam o favor de se deliciarem.

9 / 10

Lê o nosso Sistema de Pontuação Killzone: Mercenary - Análise Bruno Galvão Vita glorificada. 2013-09-04T00:17:00+01:00 9 10

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