Attack of the Friday Monsters! a Tokyo Tale - Análise

Memórias de um passado distante.

Versão testada: 3DS

Mérito seja dado à Level-5 pela criação do conjunto de séries Guild, nas quais se encontram reunidas e publicadas obras de importantes designers e produtores japoneses. Desenvolvidas exclusivamente para a Nintendo 3DS, pelas Guild já foram editados (via Nintendo) jogos de produtores internacionalmente reconhecidos como Goichi Suda (Liberation Maiden) e Keiji Inafune (Bugs Vs Tanks). No entanto, a Level-5 quis abrir a cortina a outros nomes mais desconhecidos do público ocidental, mas nem por isso menos reconhecidos no Japão. Poucos conhecerão efectivamente nomes como Yasumi Matsuno (Crimson Shroud), ou Kazuya Asano ( The Starship Damrey) e até Kaz Ayabe, que nos traz esta nostálgica narrativa interactiva; Attack of the Friday Monsters: a Tokyo Tale.

A colaboração exclusiva desta produtora com alguns estúdios mais pequenos do Japão permite aos europeus, agora que a Guild nº 2 (na qual se inclui o jogo de Kaz Ayabe) se encontra disponível na Europa, conhecer por dentro muitos produtores nipónicos. Há uns anos, era impensável uma iniciativa nestes moldes. Porém, atendendo ao baixo preço destes jogos (este Attack of the Friday Monsters custa € 7,99) e ao seu carácter exclusivo (foram criados com o propósito de servirem a Guild, disponível unicamente na 3DS), esta é uma boa oportunidade para quem sempre pesquisou por aqueles estranhos jogos japoneses, uma vez que muitos deles apresentam conceitos e design muito fora dos lugares mais tradicionais da produção ocidental.

Kaz Ayabe é desconhecido pela audiência ocidental, mas os japoneses já sabem que este peculiar produtor e director da Millenium Kitchen, trabalha na indústria desde 1986, tendo então começado por desenvolver para a Nintendo Famicom. Recentemente encontrou sucesso com Boku no Natsuyasumi, uma série para a qual ele escreveu o guião, o conceito do jogo e o design, galardoada no Media Festival Arts no Japão. Como CEO da Millenium Kitchen, Attack of the Friday Monsters fica marcado pelo regresso de Kaz Ayabe à direcção e também por ser o seu primeiro jogo lançado fora do Japão.

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Tendo em conta os trabalhos de Ayabe, este Attack of the Friday Monsters pode ser visto como um título mais pessoal, singular e por isso, há que preparar o leitor para uma especialidade do autor, que é precisamente o foco na narrativa e na sua sobreposição sobre os elementos como jogabilidade. De facto, é importante não ignorar o título e não esquecer que este jogo pretende ser um conto. Aliás, o desafio aqui inscrito é muito escasso e a jogabilidade muito redutora. Isso não implica, contudo, falta de interactividade, mas percebemos depressa que o interesse em Ayabe passou, neste título, por levar o jogador a vibrar e entusiasmar-se com sentimentos nostálgicos, no fundo, com memórias distantes.

A vida de Sotha, um jovem rapaz de 10 anos que habita nos subúrbios de Tóquio, filho de pai e mãe que trabalham numa lavandaria, experimenta as sensações próprias de quem habita fora do frenesim do centro da capital nipónica. As interacções com os residentes da pequena vila Fuji no Hana, colorida de espaços verdes, riachos e pequenas belas construções, oferece o ambiente perfeito para um regresso ao passado nostálgico de muitos japoneses que agora, já como adultos, seguram uma consola, mas que no seu tempo de infância puderam ter uma experiência muito semelhante à do jovem Sotha.

Mas o mais interessante desta narrativa não é propriamente o regresso nostálgico ao passado. Nela inscrevem-se os misteriosos episódios e estranhos eventos marcados pela aparição - todas as sextas-feiras - de monstros gigantes que combatem entre si, suspeitando-se que os mesmos são produto da poluição e dos pesados gases escuros emitidos pelas fábricas instaladas na cintura externa de Tóquio. Criaturas como os Kaiju, popularizadas nos filmes japoneses dos anos 50 e 60 (das quais emerge Godzilla, esse monstro colossal), conheceram anos mais tarde, já em séries televisivas, os heróis que os combateram. É neste cruzamento entre nostalgia, tom bucólico e forte ligação ao cinema dos monstros primeiro e dos heróis depois, que acontece este fim de tarde em Attack of the Friday Monsters, no distante ano 1971.

Sotha leva às suas costas uma mochila da escola. Enquanto explora a bucólica vila Fuji No Hana, mais amigos encontra, assim como personagens com quem começa por partilhar esse interessem em investigar mais sobre os episódios que levam os monstros a atacarem a vila às sextas. O que começa por ser apenas um show televisivo, dá lugar a uma série de desenvolvimentos misteriosos que colidem num confronto entre as colossais criaturas. A história é contada sob a forma de pequenos capítulos que se sucedem até um máximo de 26. A sequência não acontece de forma contínua, embora seja possível saltar alguns pontos, dependendo da conversa que vai acontecendo com as personagens.

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À sexta-feira, há séries na TV, sobre monstros e heróis.

Haverá quem ligue depressa este jogo às obras do Studio Ghibli, sobretudo pela forte dimensão audiovisual da vila, onde podemos ouvir o cântico das cigarras no verão, o marulhar de um riacho, a brisa de um final de tarde luminoso. Lembra tantos tempos idos. Os ângulos são estáticos, e os fundos oferecem quase uma descrição fotográfica, mas em jeito de animação. A personagem Sotha, assim como todas as outras, possuem uma definição tridimensional e o jogador pode movimentar o rapaz dentro de cada cenário 2D. É como se nos jogos do Professor Layton pudessem controlar as personagens. Isto resulta num belo quadro visual, pois as transições encontram-se muito bem conseguidas, aproveitando diferentes ângulos, ao mesmo tempo que se vê em cada perspectiva certos aspectos e uma definição 3D muito forte, por exemplo, das pontes e de outras estruturas. Numa delas, numa colina sobre a vila e com a visão apontada para as chaminés das fábricas, podemos ver uma locomotiva desaparecer no horizonte. Puro momento mágico.

Se este é, por um lado, o ponto mais fascinante da obra, no reverso da medalha está uma narrativa que se pode completar numa manhã, ou tarde-noite de verão. Por sinal, um bom jogo para estes dias convidativos à permanência no exterior, mesmo já depois do sol posto. Três a quatro horas são suficientes para completar o jogo, sendo necessário mais algum tempo se quiserem completar tudo a 100%. O desafio também é escasso. A progressão na aventura dá-se através de diálogos. A posição dos capítulos que devemos seguir encontra-se marcada no mapa, pelo que não há dificuldade; o percurso é extremamente linear. Para lá da interacção com as outras personagens, há um mini-jogo de cartas estilo rock-paper-scissors (pedra-papel-tesoura) que vos deixa como chefe ou servo da outra personagem. Quer ganhem quer percam estes desafios, só por duas vezes a condição de continuidade da narrativa é que fica dependente da vitória neste jogo, pois só assim Sotha obterá do seu colega a informação que precisa para desvendar o mistério.

Na vila de Fuji no Hana, Sotha terá que encontrar o máximo possível de Glims, umas esferas brilhantes que em número suficiente permitem obter cartas mais poderosas de monstros. Com elas será possível ganhar mais vezes e obtê-las a todas entra já no âmbito bónus do jogo, a ter lugar depois da passagem pelos final. Final esse que resulta num quadro magnífico e que nos proporciona um belo tema escrito por Kaz Ayabe, o director do jogo.

Os diálogos em japonês, as melodias notáveis e uma banda sonora realista que nos remete para as sonoridades típicas de uma vila suburbana de Tóquio nos anos setenta (entre a natureza nos cânticos da cigarra e as produções mecânicas como o trem que circula em permanente loop na linha férrea envolvente), complementam com sucesso a parte do arco narrativo; o grande triunfo de Kaz Ayabe. Não deixando de se fazer sentir um forte vazio no tocante ao desafio, não é menos certa ou mais errada a posição do seu autor ao querer privilegiar um conto. Nesse âmbito e respeitando o destino deste Attack of the Friday Monsters, depressa percebemos como o arco narrativo se impõe, embora não seja menos certo que o acrescento de um desafio mais sólido pudesse obstaculizar, irremediavelmente, as intenções do produtor. Independentemente disso, é o que está. E o resultado é um jogo único das Guilds. Pode ser menos interactivo, mais linear e pouco desafiante por comparação com outros jogos, mas poucos - muito poucos - oferecem um alcance tão nostálgico e penetrante dos subúrbios dos anos setenta de Tóquio e dos monstros Kaiju que ameaçavam os arranha céus, tudo a partir do olhar misterioso e de uma mente inquieta de um infante de 10 anos.

7 / 10

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