Star Wars: The Last Jedi desequilibra a Força

O novo filme deixou-nos com sensações mistas.

por Jorge Loureiro. Publicado 19 Dezembro 2017

ESTE ARTIGO CONTÉM SPOILERS DE STAR WARS: THE LAST JEDI

Se Star Wars: The Force Awakens nos deixou confiantes nesta nova trilogia da Disney, ainda que o filme se tenha mantido muito próximo do original, The Last Jedi, que estreou nos cinemas na semana passada, tem o efeito oposto. É efectivamente uma má continuação do filme anterior e que pouco contribuiu para a evolução da narrativa, apesar de exceder largamente duas horas de duração. É também um filme que ignora as pertinentes questões dos fãs, que o filme anterior parecia destacar, ou que ultimamente dá respostas insatisfatórias, obrigando os fãs a estudar o lore do universo Star Wars e a inventar teorias complicadas para justificar os acontecimentos do filme.

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Foi com uma sensação de desilusão que saíamos da sala do cinema. Adorámos Star Wars e um novo filme da saga é sempre um acontecimento que vem envolvido em entusiasmo e curiosidade. No entanto, ser fã de alguma coisa não significa aceitar de olhos fechados tudo o que nos metem à frente, e há coisas em The Last Jedi que nos causam uma comichão insuportável. O problema de The Last Jedi não é tanto os acontecimentos do filme, mas antes a forma como acontecem. Há uma evidente falta de construção narrativa que apoie esses acontecimentos. Portanto, se por um lado o filme é uma montanha-russa de emoções e acontecimentos, por outro é também uma grande confusão.

The Force Awakens, como o início de uma nova trilogia, introduziu novas personagens que pareciam relevantes, entre elas o Líder Supremo Snoke, que teve uma grande influência na transição de Ben Solo (mais conhecido agora como Kylo Ren) para o lado negro da Força. A identidade de Snoke foi tema de grande discussão entre os fãs, mas The Last Jedi descarta a personagem como se nada fosse. Ultimamente, a morte de Snoke serviu para colocar Kylo Ren como o grande vilão da nova trilogia, mas é uma morte insatisfatória. O propósito da morte de Snoke é aceitável, mas The Last Jedi esqueceu-se de dar um historial à personagem. Quem é Snoke? Como é que aprendeu a dominar a Força? De que forma se tornou o líder da First Order? São questões vitais que ficam no ar.

Snoke é uma peça importante para a história e que desencadeia importantes acontecimentos, mas neste momento é oco. É uma personagem sem história e que morreu como um ponto de interrogação. A dado momento no filme, Luke Skywalker afirma que pensou em matar Ben Solo (o que resulta na transição para o lado negro) porque o seu coração já tinha sido demasiado corrompido por Snoke. É mais um momento em que Snoke se revela como uma peça importante do puzzle. Será que a história de Snoke será explicada melhor no próximo filme? É possível, mas não deixa de ser estranho que uma personagem tão importante como esta morra sem ter a sua história contada.

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The Last Jedi tem outros problemas semelhantes, mostrando coisas sem explicação e contrariando o que vimos em filmes anteriores. Tudo bem, Star Wars é fantasia, mas até a fantasia tem que ter uma lógica. Enquanto outros Jedi precisam de anos de treino para dominar as habilidades da Força, até mesmo o Chosen One (Anakin Skywalker), Rey parece ter nascido ensinada. Luke Skywalker tinha dificuldade em levantar uma pedra a fazer o pino, Rey consegue levar um monte de pedregulhos sem suar. Vale a pena recordar que Rey não teve qualquer treino, e quando encontra Luke Skywalker naquela ilha isolada, este ignora-a e recusa-se a treinar outra geração de Jedi devido ao acontecimento traumático que teve com Ben Solo.

Mas o acontecimento que nos deixou mais incrédulos foi quando Leia se transformou numa Mary Poppins do espaço. Tal como Luke, Leia tem sangue Skywalker a correr-lhe nas veias, mas nunca mostrou ter capacidade de dominar a força. Quando Leia é cuspida para o espaço depois de uma explosão, consegue sobreviver no vazio e flutuar de volta para a nave. Poderíamos argumentar que a situação crítica despertou as habilidades de Leia, mas é demasiado rebuscado. É uma cena incompreensível. Todos sabemos que Carrie Fisher, a actriz que representa Leia, morreu e, portanto, deixa-nos a pensar que a Disney ia matar a personagem nos filmes mas depois arrependeu-se, criando esta sem qualquer ponta de nexo.

Snoke não passa de uma artimanha da história para colocar Kylo Ren como o grande vilão.

Também podemos perguntar onde estão os Knights of Ren (mais uma coisa do primeiro filme que The Last Jedi deixa cair no esquecimento) e porque razão Holdo, aquela mulher de cabelos roxos que ficou líder da resistência, não contou os seus planos a Poe Dameron, gerando um sub-enredo pouco interessante com Finn e Rose. Esta mini-história paralela parece existir apenas para tornar o filme mais apelativo para o público infantil, mostrando uma cena de perseguição e fuga com criaturas engraçadas. Não há nada de errado em tornar um filme apelativo para todas as idades, mas não quando isso parece ser forçado e não traz nada de relevante para a história a ser contada.

The Last Jedi tenta ser diferente dos outros filmes da saga e nota-se que quer cortar com o passado. O facto de Rey ser extremamente poderosa e dos seus pais não serem pessoas relevantes na história de Star Wars (uma revelação chocante do filme visto que a identidade dos pais de Rey era outro tópico de grande discussão entre os fãs) mostra um corte com a história da família Skywalker, que sempre esteve no centro dos filmes. Aliás, o filme até corta com a divisão entre os Jedi e Sith. Yoda faz uma aparição inesperada e lança chamas aos livros com os ensinamentos milenares dos Jedi. Portanto, The Last Jedi arrisca, tem boas intenções e quer ser diferente. Até poderia ser um bom filme, caso não perdesse tempo com sub-enredos fúteis e perdesse mais tempo a explicar devidamente as coisas.

O que não foi explicado deixa uma carga enorme para o próximo filme, que será realizado por J.J. Abrams, que também realizou The Force Awakens. O episódio IX, para além de dar uma conclusão satisfatória à trilogia, terá que pegar nas pontas soltas que este filme deixou. O filme perde demasiado tempo numas coisas e pouco tempo noutras que nos pareciam mais relevantes (Phasma é outra personagem que é descartada rapidamente). No meio disto tudo, aproveita-se Kylo Ren, que neste filme se torna na personagem mais interessante da trilogia. É a única personagem que realmente tem um crescimento significativo ao longo do filme. Já Luke Skywalker, um suposto bastião dos Jedi e da Força, regride face ao final de The Return of Jedi. É uma personagem mesquinha, com medo do passado e com medo de agir. O seu combate final redime-o, mas a maneira como morre, tal como tantas outras coisas no filme, deixa-nos a coçar a cabeça e a perguntar o que acabou de acontecer.

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Se tivesse que resumir The Last Jedi, diria que é um filme confuso, mal pensado e com um desenvolvimento aquém das expectativas. Há de facto algumas coisas que se aproveitam, mas ficam perdidas no meio de uma narrativa acidentada.

Comentários (68) Lê o artigo em Eurogamer.pt

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